Tuesday, October 9, 2007

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais. Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

3 comments:

TUTTI-TUTTI said...

Sim,voa e com fortes asas a favor do vento..nós por agora ficamos no baloiço do Parque e só precisamos de quem nos embale...
Bjs

mãe said...

«Era uma vez uma princesa no meio do laranjal»..Doce e Bela!Aperto-a no meu coração junto às rosas que me deixou!Beijinhos com todo o meu amor

a menina do parque said...

O poema é lindo e «toca» bem cá dentro!Os nossos filhos crescem mas, para nós, são sempre as crianças que embalámos nos nossos braços...a minha mãe,lá longe,está a gostar de me ver no parque.
Para uma filha adorada,todo o meu carinho e admiração.