Friday, November 16, 2007

Tantas aldeias sem gente, tanta gente sem aldeia.


Era uma vez uma aldeia de seu nome S. Gregório. S. Gregório vivia feliz no cimo de um outeiro e tinha uma magnífica vista para a Serra d’Ossa, Alentejo. Nasceu em 1483 e chegou a albergar mais de 40 pessoas que viviam sobretudo dos seus vastos e ricos campos de cultivo. As pessoas eram felizes mas não totalmente e quando, em meados de 80, se abateu a grande catástrofe por aquelas bandas, de seu nome desertificação, toda a gente fugiu deixando S. Gregório perdida no tempo e no espaço.
Há medida que o tempo passava, a aldeia ia perdendo a esperança que as suas gentes voltassem e sentia-se cada vez mais sozinha. Sentia as suas raízes murcharem, a terra a ressequir, as casas a envelhecer. Valeu à aldeia a companhia da serra com quem por vezes trocava algumas palavras, mas também a serra estava a ficar velhota e não conseguia manter uma conversa durante muito tempo. Por vezes, a aldeia trocava impressões com os pássaros que apareciam sempre de manhã à mesma hora para lhe dar os bons dias. Mas também eles tinham a sua vida e os seus afazeres. À noite falava com as estrelas. Nunca se tinha apercebido da imensidão de estrelas e da sua beleza e era à noite que se sentia mais acompanhada e brilhante, no cimo do seu outeiro.
Numa bela manhã de Primavera, estava a aldeia a falar com um beija-flor (dizia-lhe ele que o Inverno foi muito severo e que já estava com saudades das suas belas flores. Punham-no mais bem dispostinho…) quando deu pela presença de alguém. Sim, estava alguém a percorrê-la. A aldeia despediu-se do beija-flor e foi averiguar. Um rapaz ainda novo percorria a aldeia com o olhar e ia tirando apontamentos e fazendo alguns desenhos. A aldeia deu-lhe as boas-vindas e o rapaz ofereceu-lhe um sorriso. Estiveram nisto umas boas horas até que ao entardecer o rapaz foi embora. “Não vás…fica.” – choramingava a aldeia, não querendo ficar sozinha novamente. Mas para sua surpresa o rapaz no dia a seguir voltou e trouxe amigos, e continuou a voltar no dia a seguir e no a seguir. A aldeia foi renascendo e conseguiu a sua beleza de outrora.
Agora sim, era novamente S. Gregório. Todos fizeram uma festa. A serra, os pássaros e as estrelas também apareceram para felicitar a sua amiga, que ainda hoje é viva e recomenda-se.

Wednesday, November 14, 2007

Rino quê?

Depois de ter estado 2 dias em casa a tentar recuperar de uma constipação por via de mezinhas, auto-medicação e muito cobertor, lá me decidi que se calhar era melhor ser vista por alguém experiente na matéria e fui hoje ao médico. Melhor dizendo médica. E é nestas ocasiões que nos apercebemos do verbo Esperar. Ainda mais quando temos de esperar num sistema público de saúde e nas urgências.Cheguei ao centro às 11h30 e saí às 13h30 (nada mal para quem já aguentou 6 horas no hospital São José por uma consulta de oftalmologia. Mas isso é outra história....).
Portanto, cheguei ao centro e esperei na sala de espera, que não é mais do que isso. Uma sala onde se espera e desespera. A unica diversão é olharmos uns para os outros, abanarmos a cabeça de vez em quando dizendo entredentes "Realmente...só neste país".
Como ainda fiquei algum tempo, resolvi aplicá-lo observando. Mesmo ao meu lado estava uma mãe ainda nova acompanhada do seu filho que deveria ter 8 anos. O miúdo para se entreter jogava no telemóvel e ia dizendo algumas palavras, menos delicadas enquanto jogava. Uma vez irritado por não estar a conseguir que a tecla 5 do telemóvel funcionasse, voltou a expressar-se delicadamente dizendo para a mãe:"F.... mas eu vim contigo para isto?" A mãe madou-o calar suavemente agindo como se nada se passasse e acabaram por jogar à sardinha.
Entretanto uma senhora que estava à espera levantou-se e foi colocar uma questão à docente que estava no balcão de atendimento. Depreendi que tinha perguntado quando iria ser atendida porque logo de seguida a docente diz-lhe: "Compreendo, compreendo, e tem toda a razão. Mas é a Drª que faz a sua agenda e selecciona as pessoas. Nós de manhã damos-lhe a lista com as pessoas por ordem de chegada mas ela é que decide quem chama.." A senhora que tinha colocado a questão ainda perguntou quais os critérios dessa mesma chamada: "Amigos da Drª? Conhecidos? Pacientes assiduos?"
Não conseguindo obter respostas lá se voltou a sentar para continuar à espera.
Uma outra senhora (sim, a sala estava quase toda com senhoras)ia reclamando muito sarcasticamente enquanto esperava: "Para a próxima já sei. Marco para as 10 e apareço às 13h..... deixam uma pessoa assim à espera..estão pessoas à espera de uma consulta anos e quando as chamam já morreram...... atendimento particular é o que é. Gasta-se mais mas não se morre à espera." Quando estou para começar a analisar uma senhora já de idade que tinha acabado de entrar na sala, oiço o meu nome.
Sou vista pela médica e é-me diagnosticada uma rinofaringite. Não...não tem nada a ver com rinocerontes. Trata-se de uma inflamação na faringe e vias nasais.
E assim se passa uma manhã.

Friday, November 2, 2007

Fase irreverente




Ninguém melhor que o Banksy para ilustrar a irreverência.
Dá vontade de pegar num balde de tinta e desatar aos manifestos pelas ruas de Lisboa.
E estou mesmo com vontade de começar a dar umas pinceladas por aí......