Tuesday, August 12, 2008

A espinha, post nº101

A parte pior foi quando me deram o saco de plástico, preto, onde tinha de colocar tudo o que tinha comigo na altura. A minha roupa, os meus acessórios, os meus sapatos.... o meu Eu. À medida que me ia desfazendo das coisas sentia que parte de mim ia ficando no saco, restando o corpo nú, completamente desprotegido e indefeso. O saco seguiu e eu fiquei. Fiquei duas noites a soro no hospital.
No dia a seguir fiz a endoscopia e viram a espinha. Ainda a tentaram tirar mas sem sucesso. Teria de levar anestesia geral para que pudessem “mexer” à vontade. E tinha logo que me calhar uma espinha “toca e foge” pois mesmo com a cirurgia não a encontraram....das duas uma, ou já estava enterrada na mucosa ou com tanta pinça que entrou na garganta, acabou por sair. Contudo era preciso saber se ainda lá estava, porque se sim, a situação complicáva-se. Toca para mais um raio-x e mais uma tac, e mais uma noite no hospital. No final de mais uma ronda de exames chegou-se finalmente à conclusão que a espinha não estava lá. Tive alta, com antibiótico e ainda lá voltei passados 4 dias para mais uma endoscopia, just in case. Nestas 2 noites que me pareceram semanas sempre aprendi alguma coisa:

- que não se deve empurrar a espinha com pão (podemos estar a enterrá-la na mucosa);
- que devemos mastigar muito bem (o mesmo alimento 50 vezes antes de engolir);
- que há quem morra engasgado com chouriço;
- que existem inúmeros casos de pessoas que vão parar ao hospital com as mais variadas espinhas (sim, não sou caso único), para não falar de pregos, medalhas, moedas, placas dentárias, dentes, bifes, entre outros;
- que o lado humano existe. Fui muito bem tratada, sempre acompanhada de um sorriso;
- que o hospital tem uma das capelas mais bonitas que já vi;
- que o soro realmente alimenta e talvez rejuvenesça (houve quem me desse 16 anos...);
- que a estadia foi boa mas prefiro a minha cama.

3 comments:

Anonymous said...

O episódio está muito bem contado. Giro mesmo. Eu apenas estive lá do lado de fora.
Maldita espinha. Serviu para mostrar como há serviços públicos que tratam bem os utentes apesar de ser «apenas» uma espinha na garganta. Antes isso que uma «pedra no sapato»... logo não podia tangar.
Bj de uma anónima ...com o rabimnho de fora

a mãe said...

Eu só estive do lado de fora da porta,fisicamente,e mesmo assim consegui «romper»algumas barreiras..só não consegui entrar no bloco!..O saco preto andava de mão em mão..até que o sr Funesto fez de mim «fiel depositária» e ambos esperávamos, ansiosos ,que a dona do saco tomasse conta dele.
Finalmente voltou aos nossos braços...Bjs para os dois

Danço, pois said...

Não referi que o que me custou mesmo foi entregar o saco preto ao Sr. Funesto e não ir com ele para casa, mas isso ele sabe.
Obrigada pelo carinho das minhas queridas visitantes.