Wednesday, August 20, 2008

Lamego, Rua Macário de Castro, nº27

No dia 16 de Agosto de 2008 o tempo voltou atrás por breves instantes.
A manhã estava chuvosa mas mesmo assim decidimos ir dar um passeio e sentir o cheiro a pão acabadinho de sair do forno da padaria do meu avô Norberto. Aquele cheiro que nos acolhe e dá as boas-vindas, que nos envolve e que nos faz sentir tão bem.
Mesmo por trás da padaria, fica o nº27 da Rua Macário de Castro. Observo um rapaz dos seus 12 anos, com os livros por baixo do braço, tinha acabado de vir da Nossa Senhora dos Remédios. Levantou-se às 5 da manhã para estudar pois tinha teste de português no dia a seguir. Este rapaz, tem agora 62 anos e é o meu pai.
O rapaz vinha então numa correria pois já estava atrasado para o almoço. Sabia que se tinha de portar bem se queria ir à Feira de São Mateus, em Viseu. O verão é tempo de festa nas aldeias e esta é uma bela festa. Bom vinho, boas miúdas, a bela da bôla de sardinha e o doce da Teixeira. Vá lá que as suas irmãs não deram pelo atraso, pois também elas só pensavam na festa de logo à noite e entretidas escolhiam os seus vestidos na loja da esquina, para estarem bonitas para São Mateus. “Afonso, vai chamar as tuas irmãs!”, oiço o meu avô gritar da janela.
Passados 5 minutos os 3 irmãos entravam em casa e nós entrámos com eles, eu, o meu irmão e o Ricardo. Subimos uma escadaria de madeira, estreita e à medida que fomos subindo, fomos sentindo o cheiro a refogado. A Lúcia, irmã mais nova, foi arrumar as lãs que estavam espalhadas ao pé da máquina da costura. Com o entusiasmo da festa e dos vestidos, tinha saído a correr e esqueceu-se completamente de arrumar o material de costura, mesmo sabendo que o meu avô não gostava nada. O meu pai aproveitou para arrumar os livros que trazia. Não era uma casa grande mas no que diz respeito ao nº de pisos, era enorme. A sala das refeições ficava no 3º e último andar. Notava-se que aquele piso tinha levado algumas obras pois comparativamente com os outros, tinha um ar mais moderno.
O meu avô já estava sentado à mesa e estava muito bem disposto pois durante a manhã recebeu uma encomenda, ainda grande, da casa das brôlhas. “Uma grande festa”, dizia ele. “E por falar em festa, hoje é dia de feira...espero que se tenham portado bem....”. Os irmãos acenavam que sim com a cabeça pensando na noite incrivel que iam ter. Elas pensando nos bailaricos e o Afonso, nas jogatanas que existiam na festa. Ah, e nas miúdas, claro. Se o seu pai soubesse o que ele tinha feito há duas noites atrás, com certeza que esta noite não havia feira para ninguém. É que mesmo ao lado do nº 27 fica o colégio interno das raparigas e, curiosamente, o telhado do nº27 dá acesso ao muro do colégio. Não preciso de dizer mais nada, pois não?
Deixámos a familia terminar o almoço descansada e saímos de mansinho.
Fechámos a porta e voltámos ao presente com a sensação de termos presenciado um momento único e inesquecivel, mesmo sabendo que já não existe a padaria, que o meu avô não está entre nós e que o Afonso é agora um homem feito.

7 comments:

Anonymous said...

Afinal a memina não só dança como escreve com muita singeleza e beleza. E pergunto? Afinal quem o copy na família? Bela e trena prosa. Já sei com quem vou escrever o meu próximo livro lá para 2011?
A menina aceita? Pode escolher o tema.
Parabéns.

Danço, pois said...

Obrigada pelo elogio :) vou pensar no tema.

a mãe said...

Eu entro na história com a idade de 20 anos e conheço os manos e o pai.Em Abril eram os bailes na Academia Militar e eu tinha que estrear o meu vestido novo...e nessa festa estava o Afonso.
Fui tratada como uma princesa no nº27 da Rua Macário de Castro e também saboreei com gosto o pão quentinho e as bôlas do pai Norberto.
Tenho,hoje,a grande alegria de ter
dois belos filhos.

tijuca said...

Quero dar os meus Parabéns à Menina Dança,quer pelas belas histórias que nos oferece,pelas danças que podemos apreciar e nos fazem sonhar...e muito,principalmente, um grande beijo pelo passado dia 16 de Agosto!
Muitos Parabéns!

Danço, pois said...

Assim fico sem jeito :) obrigada pelas palavras da minha querida mãe, a princesa do nº27.

Caixinha das Surpresas said...

Também eu poderia contar aqui uma história do menino Afonso...
Conto?
Pois bem,tinha ele já os seus 13, 14 aninhos e gostava das suas tropeliazinhas que naquela altura se resumiam a :
- Em praça pública e debaixo dos mirones policias um grupo de adolescentes, onde se incluia o dito rapaz, fazia uma roda bem fechadinha e para o centro apontavam com um belo esguicho de urina, a seguir dispersavam com a maior das naturalidades e os ditos policias ficavam a olhar abismados para aquele "lago".
Bjs e parabéns Ana.
A TITI
Helena

Danço, pois said...

Muito me conta minha querida tia. Dessa não sabia eu :) obrigada por partilhar esse pequeno segredo. Beijos com amor.